sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Recaída



Algumas vezes eu podia até sentir o gosto
dos meus lábios, parecendo um sorvete de baratas.
O cheiro da minha pele queimada e o grito de
traição assombravam meu sono, até mesmo agora,
depois de tanto tempo.
Balancei a cabeça para não dormir.
Se eu gritasse, o som se perderia
na espessa escuridão do meu quarto.
Esfregando os olhos, peguei desajeitadamente
o maço de cigarros ao lado da minha cama...
E distraidamente risquei o fósforo para acender
a porcaria.
Uma faísca lançou um pequeno brilho
sobre as paredes imundas,
e então desapareceu num sussurro.
Fumaça nova misturou-se com o ar parado,
enquanto eu forçava a respirar lentamente
mais calmo, concentrei-me no livro à minha frente.
Imagens que antes eu acharia obcenas,
agora oferecia-me familiaridade,
um descanso bem-vindo dos horrores do passad
Apesar de sentir um pouco de arrependimento
pela dor que causei a mim mesmo,
toda culpa abandonou-me bem antes do renascer.
Para que servia o arrependimento
se eu já estou condenado ao INFERNO?
O barulho inspido das cinzas caindo na página
interrompeu meu desvaneio.
O som me trouxe de volta para o presente.
Melhor não ficar pensando nessas escolhas difíceis.
Os rabiscos arcanos me chamavam,
me seduziam com saberes que já eram antigos,
antes mesmo do Dilúvio.
Terminei meu cigarro com o último trago pesado,
espalhando as cinzas com um aceno,
e paroximei-me ainda mais no indescrítivel.
Ainda há tanto a aprender...
Mas Deus e o Diabo sabem que eu paguei o preço
por isso.






1 comentário:

Solferino disse...

adorei querido!

dilacerante...